Alimentos
Transgênicos
Benefícios
ou Riscos Para a Saúde da População?
Desde
o século XIX, quando o estudioso Gregor Mendel desvendou
as características genéticas dos vegetais, os cientistas
buscam combinações genéticas entre as plantas
para obter mais qualidade e produtividade.
O
que Mendel fez, analisa a especialista em nutrição
clínica pela Universidade Federal de Ouro Preto, Erica Vidigal,
foi cruzar espécies diferentes de ervilhas de forma que as
características de espécies diferentes fossem aleatoriamente
combinadas para gerar novas espécies.
Esse
processo recebeu o nome de hibridação. O resultado
final não era previsto, porém, as combinações
abriram as portas para a atual biotecnologia. Hoje é comum
depararmos com a expressão "alimento alterado geneticamente",
"transgênicos", "manipulação
genética", causando dúvidas e gerando polêmicas.
Com
o objetivo de esclarecer algumas dessas controvérsias, que
não ocorrem apenas no Brasil, mas em todo o mundo, Erica
Vidigal explica alguns aspectos que envolvem o assunto, desde os
aspectos políticos, éticos e até religiosos
que não serão debatidos, pois a busca por respostas
deve ser pautada na luz da Ciência.
Há
mais de 10.000 anos, desde que o homem iniciou-se na arte da agricultura,
a hibridação é utilizada. A diferença,
no caso dos alimentos modificados pela engenharia genética,
é que a hibridação ocorre entre seres que são
da mesma espécie, enquanto na biotecnologia são utilizadas
espécies diferentes, portanto com informações
genéticas diferentes, para gerar uma espécie nova,
diferente.
Segundo
Erica, após identificar em várias espécies
de vírus, bactérias e plantas características
com genéticas importantes para aumentar a qualidade e a resistência
de plantas da lavoura comercial às pragas, os cientistas
transferem essas características para a planta que não
possui a informação genética, mas que irá
ter benefícios com a inclusão da característica
em seu código genético.
O
processo ocorre através do isolamento do gene que contém
as informações necessárias e a inserção
dele no DNA de células de tecidos da planta a ser alterada
com o auxílio de máquinas especiais ou microrganismos.
O embrião gerado dá origem a uma planta com a característica
desejada incorporada em seu código genético, capaz
de produzir as sementes transgênicas, explica.
Nos
transgênicos, há a vantagem de os genes serem usados
para fins extremamente definidos; já na hibridação
ocorre a mistura de dois códigos genéticos completos,
sem saber o resultado final. Essa nova era na agricultura representa
uma resistência maior dos vegetais aos produtos químicos,
agrotóxicos, insetos e fungos, que normalmente devastam a
lavoura.
Além
disso, do ponto de vista econômico, representa maior produtividade.
Analisando a produção internacional, encontramos 60%
de todos os produtos processados nos Estados Unidos sendo manipulados
geneticamente.
Análise
Segundo
Erica Vidigal, a Argentina possui 6,9 milhões de hectares
plantados com soja transgênica, sendo que essa produção
representa 90% do total.
O
milho representa 20% da produção de transgênicos.
O país irá economizar somente neste ano de 2.000,
200 milhões de dólares, e somente com a soja, 30 dólares
por hectare serão economizados.
No
Brasil, a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária),
utiliza a biotecnologia em pesquisas e testes com a soja, feijão,
mamão, banana, batata e algodão em relação
a resistência a fungos, herbicidas e vírus, entre outras
pragas.
As
pesquisas ocorrem com mais intensidade na soja, que representa 54%
da produção dos alimentos modificados pela genética
e ocorre desde 1996. A principal alteração é
a resistência aos herbicidas.
O
milho sofre modificação para aumentar a resistência
alguns tipos de herbicidas e insetos, e representa 28% da produção
de mais de dez espécies modificadas. O algodão e a
canola também são testados pela Embrapa e equivalem
a 9% da produção.
A
canola é utilizada para fazer óleo comestível
e os testes ocorrem para aumentar a resistência a pragas e
para produzir um óleo mais saudável. O algodão
é testado para aumentar resistência aos microrganismos
que atacam as plantações, e as variedades alteradas
chegam a ocupar 4 milhões de hectares.
A
soja patenteada pela Monsanto, uma empresa da área de biotecnologia,
recebeu um gene retirado de uma bactéria que a torna resistente
aos herbicidas utilizados, o que representa redução
de 15% no custo da produção e pode refletir diminuição
no preço ao consumidor final. A Monsanto também pesquisa
uma variedade de arroz enriquecido com betacaroteno.
Vários
laboratórios espalhados pelo mundo, acrescenta a especialista,
realizam pesquisas envolvendo genes que aumentam o valor nutricional
dos vegetais. "Como toda pesquisa precisa avaliar os benefícios
e as contra-indicações de seu objeto de estudo. No
caso dos transgênicos, as vantagens da aplicação
da biotecnologia são indiscutíveis". Porém,
quais são as desvantagens?
Existem
Desvantagens?
Segunda
a Dra. Vidigal, as desvantagens ainda são desconhecidas.
Desde 1994, as primeiras sementes modificadas foram comercializadas
e nada foi detectado como anormalidade. A ciência ainda não
desvendou todos os mistérios que envolvem a manipulação
genética. Os riscos que existem ao misturar genes de espécies
diferentes não são totalmente conhecidos.
A
biotecnologia é extremamente complexa e exige precauções
e estudos controlados de longo prazo e que avaliem todas as variedades
envolvidas no processo.
Se
uma semente torna-se mais resistente aos produtos químicos,
como agrotóxicos e seres como vírus e fungos, e sabendo-se
que dentro de um gene existem várias informações
codificadas, não seria razoável que esse mesmo gene
desencadeasse alguma reação dentro do organismo? A
realidade é que no Brasil esses produtos já estão
chegando à mesa do consumidor, diz a nutricionista.
Por
decisão judicial, no Brasil, os produtos que utilizam a biotecnologia
só podem ser manipulados para fins de pesquisa em plantações
experimentais, como a Embrapa.
Porém,
clandestinamente, os grãos são cultivados a partir
de sementes vindas da Argentina e dos Estados Unidos, principalmente
no sul do país. E o Brasil importa produtos processados com
alimentos modificados vindos de vários países acima.
Além disso, o país não apresentou um consenso
em relação ao assunto, mas a utilização
de herbicidas e produtos químicos nas lavouras é disseminada.
Efeitos
da Prática
Segundo
Erica Vidigal, os efeitos dessa prática são nossos
velhos conhecidos, principalmente a carcinogênese comprovada.
A União Européia é completamente contra a liberação
de novos produtos modificados e os que já existem devem informar
a composição no rótulo.
Várias
dúvidas ainda ficarão sem resposta verdadeira como
o potencial aumento do número de casos de alergias, desenvolvimento
de resistência bacteriana com a conseqüente redução
da eficácia de antibióticos, a potencialização
dos efeitos tóxicos de resíduos de agrotóxicos.
A
população cresce de maneira desorganizada e a distribuição
de renda é totalmente irregular e injusta. A fome é
real e um grave problema de saúde pública. Enquanto
a biotecnologia buscar melhorias na qualidade e na produtividade
ela tem seus méritos e créditos, destaca.
Além
disso, pondera a nutricionista, "salvar crianças que
morrem por deficiências de vitaminas através da biotecnologia
e aumentar a produção de grãos a nível
internacional já é um mérito suficiente para
incentivar as pesquisas e a determinação dos possíveis
efeitos colaterais da manipulação genética.
" Os movimentos políticos, ideológicos, religiosos
e comerciais deveriam avaliar a relação custo-benefício
e lutar sim, mas pela segurança alimentar e não apenas
por interesses", finaliza.
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